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sexta-feira, 20 de março de 2020

Coronavírus: saiba o que deu errado na Itália, país que registra maior número de mortes


Homens com máscaras de proteção carregam caixão de vítima do novo coronavírus em cemitério de Bergamo, na Itália Foto: Flavio Lo Scalzo / REUTERS
ROMA — A Itália registrou nesta sexta-feira mais 627 mortes pelo novo coronavírus, o maior número de vítimas em 24h desde o início da pandemia. Um dia antes, o país já havia superdo a China com o maior número de vítimas relacionadas ao novo coronavírus. Com isso, as vítimas fatais chegam a 4.032. Mas o que deu errado?

Uma das razões para a alta mortalidade no país é o grande número de idosos, proporcionalmente maior que na China — a idade média do italiano é de 44 anos, contra 37 dos chineses. Segundo o Instituto Superior de Saúde, ligado ao Ministério da Saúde, a idade média do italiano que se infecta pelo novo vírus é de 63 anos.

Em quarentena há trezes dias, o país foi o primeiro a impor um confinamento geral à população para tentar frear a pandemia, que se tornou a sua mais grave crise desde a Segunda Guerra Mundial. Tomada para preservar o seu sistema de saúde, a medida extrema, após resistência inicial dos pares europeus, acabou sendo adotada por países como Espanha e França.

Mas o momento em que ele se alastrou no país europeu, pelo menos desde janeiro, também contribuiu para o panorama: trata-se de um período frio, em que tradicionalmente há mais casos de gripe, confundida inicialmente com a Covid-19.

— A principal razão é o tamanho da nossa população de idosos — afirma o médico Antonio Montegrandi, especializado em doenças infectivas. — Até agora, as vítimas relacionadas à Covid-19 com menos de 50 anos são raras, e todas conviviam com alguma doença séria.

Médico em Roma, ele teve dois pacientes que morreram por complicações relacionadas ao coronavírus: um de 84 anos e outro de 92.

A situação é mais crítica na Lombardia, região do Norte, uma das mais ricas do país, onde o número de mortos já superou dois mil. Responsável por um quarto do PIB nacional e com um sistema de saúde considerado um dos melhores da Europa, a região está próxima do colapso, com escassez de médicos e falta de leitos em UTIs.

Outro aspecto que explica a rápida difusão, e que inevitavelmente contribui com o índice de mortes, é a dificuldade dos italianos em respeitar a quarentena, o que foi muito discutido no país nos últimos dias. Montegrandi diz que o modo de vida “irresponsável” de seus conterrâneos contribui, um povo que, segundo ele, “não tem um senso cívico” e é “um pouco rebelde” com as regras.

O contraste da anarquia italiana, conta ele, fica evidente quando comparado ao esforço feito em lugares como China e Coreia do Sul, nações mais disciplinadas que a italiana:

— Como se trata de um vírus muito contagioso, esse modo de vida se transforma num problema. Muitos jovens estão infectados, não apresentam sintoma, pensam que estão bem e continuam a infectar outras pessoas, tornando-se um perigo para a faixa de risco. Por isso é importante respeitar a quarentena.

Montegrandi defende que a Itália deveria realizar exames em massa na população para conseguir isolar os eventuais infectados assintomáticos, medida que não está sendo adotada. Especialistas e o próprio governo reconhecem que há uma subnotificação dos casos na contagem nacional — são mais de 41 mil positivos ao teste, entre pessoas ainda em tratamento e que já se curaram, mas o número real de contaminados pode ser três vezes maior.

Antes de o governo decretar o confinamento nacional, as primeiras medidas de restrição se concentravam nas cidades do Norte, epicentro da difusão na Itália. Quando a recomendação era de permanecer em casa, muitos foram passear em praias e estações de esqui, que ficaram cheias.

Fotos de aglomerações nesses lugares ganharam as redes e foram citadas pelos ministros do governo e pelo governador da Lombardia para justificar as medidas extremas. Entre as pessoas que foram esquiar estava um senhor infectado pelo Covid-19, que deveria obrigatoriamente estar em isolamento.

Outro problema para conter o vírus surgiu quando soube-se que o governo iria decretar uma quarentena em todo o país: houve um deslocamento em massa do Norte — em trens, ônibus e aviões — para as cidades do Centro e do Sul da Itália, regiões onde a epidemia está mais controlada. Infectologistas do Instituto Superior de Saúde, que monitoram a emergência, consideraram a atitude irresponsável.
Quarentena estendida

O decreto da quarentena — intitulado “io resto a casa” (eu fico em casa) — começou a vigorar no dia 9 de março, suspendendo aulas, missas, funerais e competições esportivas, além de fechar comércios e estipular regras de circulação. Dois dias depois, o governo baixou novas regras, determinando o fechamento de bares e restaurantes. Agora estão abertos apenas serviços como supermercados, farmácias e tabacarias, que funcionam em horário restrito e com número limitado de clientes.

Sair às ruas é permitido apenas por motivos de trabalho ou saúde, e o deslocamento precisa ser justificado sob pena de multa e pode render até prisão. Em uma semana, foram denunciadas mais de 43 mil pessoas que descumpriram o decreto, segundo o governo. A Itália começou a empregar esta semana militares do Exército para aumentar os controles nas ruas, transportar corpos em cidades onde os cemitérios estão superlotados, como em Bergamo, e para montar hospitais de campanha. Segundo especialistas, a a pandemia ainda não atingiu o seu pico na Itália, que estendeu o período de quarentena além do dia 3 de abril, inicialmente previsto. 
*oglobo.globo.com




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