terça-feira, 26 de julho de 2022

Mais da metade da população de 71 cidades do Ceará vive em extrema pobreza

 

Aumento da pobreza gera falta de acesso a moradia, alimentação, saúde e outros direitos básicos (Foto: Kid Júnior)

O Ceará vive dividido por uma fronteira invisível. De um lado, bilionários; do outro, miseráveis. De um lado, mansões de portas imensas; do outro, “moradas” sem porta, as ruas. Nesse estado de desigualdades, 71 municípios (veja mapa clicando aqui) figuram numa lista indigesta: neles, pelo menos 50% da população é extremamente pobre.

 

Em 2022, mais de 3,4 milhões de pessoas integram famílias em situação de extrema pobreza, inseridas no CadÚnico, do Governo Federal. Isso é mais de um terço de quem vive aqui.

 

Os dados são do Ministério da Cidadania, tabulados e cruzados pelo Diário do Nordeste. Para o CadÚnico, vive em extrema pobreza a família que tem renda mensal per capita de até R$ 105.

 

Colocando uma lupa sobre as localidades, Antonina do Norte se destaca: com uma população estimada de 7.402 pessoas, o município tem 5.317 pessoas em famílias extremamente pobres – ou seja, 71% da população.

 

Penaforte e Trairi aparecem em seguida, com 68% e 67% da população inserida em núcleos familiares cadastrados no CadÚnico como “em situação de extrema pobreza”.

 

No outro extremo, Horizonte, Juazeiro do Norte e Russas são as cidades com menor proporção de pobreza: respectivamente, são 18%, 20% e 23% da população vivendo em contexto de vulnerabilidade extrema.

 

“Pobreza é estrutural"

Vitor Hugo Miro, economista e coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP) da Universidade Federal do Ceará, destaca que a recessão impulsionada pela pandemia foi amenizada por benefícios como o Auxílio Emergencial, mas com a descontinuidade dele, “a renda das famílias declinou e os indicadores de pobreza sinalizaram isso”.

 

O pesquisador aponta ainda que o desemprego e a expectativa de aumento do valor pago pelo Auxílio Brasil também deve alavancar a busca das pessoas pelo benefício.

 

Em 2022, até observamos uma melhora nos indicadores de mercado de trabalho, mas não da renda. A taxa de desemprego diminuiu, mas com postos de trabalho que remuneram menos, com menor índice de formalização. (Vitor Hugo Miro - Economista e professor da UFC)

 

André Lima Sousa, professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece), avalia que o cenário de pobreza enfrentado pelo Ceará é “estrutural e histórico”, diante do acúmulo de riquezas principalmente no interior.

 

Por outro lado, ele complementa, “não há um modelo de desenvolvimento que privilegie a descentralização de riquezas, a ocupação produtiva da população”.

 

A concentração de renda e da propriedade fundiária no interior, principalmente, gera essa situação de empobrecimento generalizado da população, que não tem as condições ou meios de sobrevivência básicos. (André Lima - Cientista social)

 

Fome, acesso precário à saúde e educação e desenvolvimento infantil prejudicado. Esses são alguns dos principais e mais graves impactos da pobreza estrutural e intergeracional que avança no Ceará, como avalia Vitor Hugo.

 

“Não é só a alimentos, essas famílias mais vulneráveis passam a ter acesso precário a diversos produtos e serviços, incluindo educação e saúde. Jovens acabam tendo que buscar trabalho para complementar a renda em casa, têm estudos prejudicados ou acabam abandonando a escola”, destaca o pesquisador.

 

Esses efeitos são de difícil reversão e afetam o desempenho ao longo da vida estudantil, como acessam o mercado de trabalho e como se relacionam na sociedade. Por isso, políticas com foco na primeira infância são tão importantes, seja para retirar as famílias da pobreza ou minimizar os efeitos dela sobre o desenvolvimento das crianças. (Vitor Hugo Miro - Economista e professor da UFC)

 

Auxílio Brasil não chega a todos

 

Em abril deste ano, segundo dados do CadÚnico disponíveis para consulta pública, mais de 1,3 milhão de famílias cearenses estavam cadastradas como extremamente pobres”. Delas, pouco mais de 112 mil não tinham acesso ao Auxílio Brasil, antiga Bolsa Família.

 

Só em Fortaleza, 45.191 famílias se enfileiram à espera de receber a principal política de transferência de renda atual. Em Caucaia, na Região Metropolitana, eram 3.936; e Maranguape, 2.533. Municípios menores, como Arneiroz, Senador Sá e Ererê, têm as menores filas.

 

André Lima lamenta que “às famílias que não conseguem acesso ao Programa Auxílio Brasil, só resta continuar na situação de miséria e fome”, cenário que impacta diversas esferas da sociedade – como saúde e educação.

 

“Claro que essa política (PAB) vem permeada por diversas dimensões: famílias com gestantes precisam fazer acompanhamento médico para receber o benefício; em famílias com crianças e jovens, eles devem estar matriculados na escola.”

 

Para complementar o auxílio federal, o Governo do Estado, por meio da Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), cita 4 "políticas públicas estaduais voltadas à população em situação de vulnerabilidade:

 

Vale Gás Social;

Mais Nutrição (doação de alimentos);

Cartão Mais Infância Ceará (transferência de renda);

AvanCE (bolsas estudantis).

(Fonte: DN)

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