quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

95% dos alunos da rede pública terminam a escola sem conhecimento adequado de Matemática

 

Avaliações internacionais, como o Pisa, também mostram o Brasil entre as piores colocações em Matemática, com desempenho pior do que em Leitura. 

Dados da última avaliação nacional realizada antes da pandemia mostram que 95% dos estudantes terminam a escola pública no País sem o conhecimento esperado de Matemática. Isso quer dizer que só 5% dos jovens do 3º ano do ensino médio conseguiam em 2019 resolver problemas usando probabilidade ou o Teorema de Pitágoras.

 

Os resultados são ainda mais graves porque os alunos passaram, em seguida, por um ano de escolas fechadas e ensino remoto insuficiente. Além disso, o Congresso pode determinar que municípios, Estados e União não mais precisem vincular uma quantidade mínima de recursos para a educação, o que diminui as possibilidades de reverter o quadro, segundo especialistas.

 

A tabulação dos resultados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) 2019 foi feita pela plataforma QEdu e pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), com apoio da Fundação Lemann. Em Português, uma quantidade bem menor, 69%, não chega ao nível considerado adequado. Eles não conseguem identificar a ironia em um texto e inferir o tema de uma reportagem. Outros 31% são considerados proficientes na disciplina.

 

“A matemática depende muito mais da escola, a leitura você pode viver fora do ambiente escolar, a família pode ajudar mais”, diz o diretor do Iede, Ernesto Faria. Segundo ele, o problema só deve se agravar após o período de pandemia. Muitas escolas públicas no Brasil não voltaram ainda ao ensino presencial. “Vão ser poucas as famílias que vão se preocupar se o aluno não está assistindo uma aula de trigonometria, por exemplo”, completa.

 

Mesmo entre escolas particulares de elite, temas como geometria foram retirados do currículo do ano passado porque não se encontrou uma maneira de ensinar online. “Se não tiver o professor ao lado, estimulando, é muito difícil”, diz o coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), Claudio Landim.

 

Para ele, o problema no País, mesmo em tempos pré-pandemia, é a falta de formação do professor para ensinar matemática em cursos de Pedagogia. “Os professores passam a ensinar o que não sabem às crianças, se tenta transmitir regras, algoritmos, sem saber o que aquilo representa”, diz. Ao longo dos anos, completa, o problema vai se acumulando e chegam ao fim da escola sabendo muito pouco de Matemática.

 

Os dados do Saeb mostram que no 5º ano do ensino fundamental, 47% sabem o que é adequado para a série na disciplina nas escolas públicas. O índice cai para 18% no 9º ano do fundamental e depois para 5% no 3º ano do médio.

 

João Cipriano Filho, professor de Matemática de uma estadual de Salgueiro, cidade no sertão de Pernambuco, diz que o segredo é o estímulo ao aluno. Sua escola tem Ideb 5,8 no ensino médio, muito acima da média nacional na disciplina. “Muitos alunos já chegam do ensino fundamental assustados com a Matemática”, conta. “Nosso diferencial é mostrar que a gente acredita neles, que temos um objetivo comum, que é ele conseguir entrar na universidade.”

 

Avaliações internacionais, como o Pisa, também mostram o Brasil entre as piores colocações em Matemática, com desempenho pior do que em Leitura. Em 2019, o ensino médio teve alta de 0,4 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), passando de 3,8 para 4,2, mas ainda abaixo da meta estipulada pelo governo.

 

Desvinculação de recursos da educação

 

Diversas entidades, educadores e congressistas têm se posicionado contra a relatório do senador Marcio Bittar (MDB-AC) da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) emergencial, que tem medidas para destravar uma nova rodada do auxílio emergencial. O texto, apresentado nesta terça-feira, pede a desvinculação de gastos com saúde e educação.

 

O mínimo atualmente é de 25% das receitas com impostos para Estados e municípios. Na União, o piso era de 18% até 2017, quando o valor passou a ser atualizado pela inflação. Defensores da medida afirmam que a mudança permitiria aos gestores definirem prioridades para o uso da verba em cada município ou Estado.

 

Para o conselho de secretários estaduais de educação (Consed), a medida se trata de “golpe no financiamento” da educação, que mesmo com aumento de recursos ao longo dos últimos anos ainda está longe de atingir o objetivo desejado no País. Em nota, o Consed disse que “muito ainda há que se investir na manutenção e desenvolvimento do ensino, especialmente na educação básica pública, para que se alcancem patamares satisfatórios de qualidade”, assim como mostram os resultados do Saeb.

 

“Em um momento em que os entes federados discutem o processo de reabertura das escolas públicas e implementam os necessários protocolos de segurança sanitária, é impensável propor alterações nesses percentuais”, afirmou, em nota, o presidente da união dos secretários municipais (Undime), Luiz Miguel Garcia.

 

O movimento Todos pela Educação também chamou atenção para o fato de que, entre 2007 e 2017, o valor por aluno por ano no ensino fundamental brasileiro subiu de cerca de R$ 3 mil para cerca de R$ 6 mil por causa da vinculação de recursos e do Fundeb. E que a PEC ameaça ainda o novo Fundeb aprovado no Congresso no fim do ano passado, já que a União leva em conta o que os municípios e Estados investem para fazer a complementação de recursos. “A desvinculação não pode ser aprovada de forma aligeirada e oportunista no contexto da pandemia”, diz a nota do Todos.

*AE

 

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