terça-feira, 2 de agosto de 2022

Municípios discutem como recuperar mais de 11 mil alunos que abandonaram a escola no Ceará

 

Encontro pela Educação Selo Unicef reuniu profissionais da educação para fortalecer politicas públicas para crianças.  (Foto: Thais Mesquita/OPOVO)(foto: Thais Mesquita)

O abandono escolar se tornou uma das principais preocupações dos dirigentes da educação durante a pandemia de Covid-19, que obrigou escolas de todo o Brasil a adotarem modelos remotos de forma rápida e pouco planejada. Em encontro promovido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em Fortaleza, representantes de 179 municípios do Ceará que participam da iniciativa Selo Unicef se reuniram para discutir estratégias sobre como trazer de volta aqueles alunos que abandonaram a escola.


Em 2019, 15.102 alunos das redes municipal (excluindo Fortaleza) e estadual abandonaram a escola, segundo dados da plataforma da Busca Ativa Escolar do Selo Unicef. A instituição tem como base os dados do Censo Escolar de 2019, divulgado em 2020. Os censos dos anos de pandemia não são considerados devido a uma subnotificação de dados de evasão, o que não representa a situação atual do estado, conforme o Unicef.


Diante deste cenário, discussões entre os municípios e o Unicef resultaram em uma meta de conseguir o retorno de pelo menos 40% desses estudantes para a escola. Desde então, segundo Rui Aguiar, chefe do escritório do Unicef em Fortaleza, cerca de 70 municípios já bateram a meta e conseguiram reverter o abandono de 3.705 alunos. No entanto, mais de 11 mil crianças e adolescentes continuam fora da escola no Interior do Ceará.

 

“Tem uma série de municípios que ainda não começaram o trabalho, que ainda não conseguiram rematricular nenhuma criança. Esses nos preocupam mais”, afirma Rui. As estratégias para atrair esses alunos de volta são decididas por cada secretaria municipal de educação, mas o Unicef segue defendendo a busca ativa como forma eficaz de entender o que levou o estudante a abandonar os estudos e como é possível ajudá-lo a retornar.


Conflitos territoriais e vulnerabilidades socioeconômicas afastam jovens da escola


Para a especialista em educação do Unicef, Verônica Bezerra, o risco de abandono cresceu durante a pandemia. Com isso, a busca ativa por meio do controle da frequência e do contato direto com os estudantes faltosos deve focar tanto em trazer de volta aqueles alunos que abandonaram a escola como também cuidar para aqueles que estão matriculados não desistam.


“Quando a gente faz uma lupa pra entender o que é que tem afastado essas crianças e adolescentes da escola, em geral as causas não passam exclusivamente pela educação. Nós temos no fenômeno das múltiplas violências como um fator muito forte. Também temos um certo desinteresse dos jovens pela escola, um descrédito que a escola pode ajudá-los num futuro diferente”, explica.


As causas mencionadas por Verônica são vistas nas atividades do grupo de busca ativa de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. Marta Mendes, articuladora do Selo Unicef na cidade, afirma que houve um “boom” de questões envolvendo a violência durante a pandemia, o que torna a disputa por territórios e conflitos entre facções criminosas um dos principais motivos dos alunos deixarem de ir à escola.


Em 2019, 600 alunos abandonaram os estudos em Eusébio. “Dentro da secretaria tem um grupo e quando ele detecta que aquela criança ou adolescente não está comparecendo à escola, esse grupo é acionado e é feita toda uma mobilização, uma visita tanto na escola como na residência do aluno”, afirma Marta. Com a busca ativa, 200 alunos que tinham saído da escola foram matriculados novamente.


O desafio continua com aqueles estudantes que abandonaram a escola em 2021, cerca de 432. Até julho de 2022, 80 deles voltaram, segundo Norberio Terceiro, supervisor institucional da busca ativa escolar de Eusébio. Para Marta, o diferencial para ter êxito na busca ativa é o envolvimento de agentes da saúde e conselho tutelar que fazem parte do comitê intersetorial organizado no município.


A ideia é compartilhada por Verônica Bezerra. “A gente percebe que quando o arranjo intersetorial se materializa no município, quando há a compreensão de que é a mesma criança para a educação, para a saúde, e para a assistência, esse atendimento integral e integrado é o maior fator de sucesso. Em qualquer resultado positivo, esse aspecto é central”, diz.

*(Portal O POVO)

 

 

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