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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Estilo de Mourão divide analistas políticos no início do Governo


Em pouco mais de um mês, Mourão assumiu a Presidência por duas vezes
Para cientistas políticos, o vice-presidente pode se apresentar como um polo de poder em meio a demonstrações de falta de coerência no Governo Bolsonaro, mas há divergências quanto ao lugar de destaque ocupado por ele

Ele não quer ser um vice sem prestígio. Segundo na linha sucessória da Presidência da República, Hamilton Mourão (PRTB), desde a eleição de 2018, tem dado demonstrações de estilo próprio que, com frequência, vão de encontro ao que defende o próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL). Para analistas políticos entrevistados pelo Diário do Nordeste, isso evidencia a correlação de forças por trás do presidente neste início de mandato.

Duas semanas atrás, Mourão foi presidente durante dois dias em razão da cirurgia a qual Bolsonaro foi submetido para a retirada de uma bolsa de colostomia. Antes disso, durante a ida do chefe do Governo Federal ao Fórum Econômico Mundial, na Suíça, Mourão também comandou o Palácio do Planalto.

"Ele vai se fazer ouvir o tempo todo", avalia Carlos Ranulfo de Melo, professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ele, o vice tem potencial para ser uma figura influente ao longo do Governo, e seu poder pode ser inversamente proporcional ao do próprio presidente.

"Se Bolsonaro se enfraquece, se essas denúncias em relação ao 'garoto' crescem, e a vinculação com milícias ficarem mais robustas, nesse sentido, o vice ganha protagonismo", diz, referindo-se às investigações voltadas a assessores do senador Flávio Bolsonaro (PSL) durante seu mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Outro ponto a favor do vice-presidente seria a organização - ou a falta dela - no Governo. Ranulfo separa a gestão Bolsonaro em quatro grupos: o liberal - comandado pelo ministro da Economia Paulo Guedes -, o religioso - que tem representantes como a ministra da Família Damares Alves e o chanceler Ernesto Araújo -, o da Justiça - liderado pelo ministro da Pasta homônima Sérgio Moro - e o militar, o qual integra Mourão. Esses grupos, com frequência, não se entendem. E Mourão, como vice, está em uma posição de força nessas disputas.

Nem todos, porém, dão a Mourão o título de "líder" do grupo militar. Márcio Juliboni, cientista político da universidade paulista Mackenzie, aponta que o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, parece ter mais ascendência sobre Bolsonaro. "Ele está dentro do Palácio do Planalto", declara, referindo-se à localização da Pasta de Heleno.

Discurso

O especialista também aponta que Mourão não foi a primeira escolha para o posto de vice. Antes, o senador Magno Malta (PR) e a deputada estadual eleita Janaína Paschoal (PSL-SP) foram cotados para o posto.

Juliboni concorda, entretanto, que o estilo de Mourão vai em outra direção em relação ao de Bolsonaro. Enquanto o presidente não teria alterado seu comportamento em relação à campanha, o vice já o teria feito. "Ele conseguiu pelo menos descer do palanque ou entender que a postura particular de um cidadão não necessariamente pode ser a postura de Estado e de Governo", analisa. Para o cientista político, Mourão "tem sido um dos pontos de referência" neste início de Governo.

Na avaliação de Felipe Nunes Santos, também cientista político da UFMG, as declarações do vice-presidente têm soado menos à direita do que durante a campanha. "Ele tem uma estratégia muito clara de reposicionamento da imagem dos militares na política", declara. Santos também observa a existência de núcleos no Governo, e considera que Mourão tem tentado garantir o seu quinhão. "O que o Mourão está fazendo é testar o próprio tamanho", opina.
Por Renato Sousa - DN



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